domingo, abril 25, 2010

Uma História de Amor

Onze horas da manhã. Na cidade, o trânsito, depois da tempestade matutina, voltou à calmaria. Nos arranha-céus e pelas ruas, homens e mulheres realizam suas atividades rotineiras, com aquele “gostinho de quero mais”: o fim de semana passou tão depressa!
Saboreando estar de folga numa segunda-feira, a morena caminha em direção ao mar. Por onde passa, provoca olhares, divertindo-se ao tentar adivinhar os pensamentos de cada um: inveja ; reprovação; admiração; aquele... melhor eu nem olhar. Vaidosa, triunfante, segue seu rumo, com ar de indiferença. Ao vislumbrar, ao longe, aquele a quem ama, um sorriso lhe aflora aos lábios. Tem pressa de chegar.
Os pés delicados buscam uma trilha molhada, na areia já escaldante. Antes de tomar posse de seu território, observa, num misto de amor e respeito, o grandioso mar. Perde-se olhando suas ondas, que percorrem a orla de uma ponta a outra, ostentando um gigantesco e maravilhoso colar de espuma.
Escolhe um lugar menos habitado. Arruma seus pertences, que resumem-se a uma canga, que lhe envolvia os quadris, seus óculos e uma bolsinha, contendo um documento de identificação e protetor solar. Mais uma vez, volta-se para ele. O marulhar das ondas parece exigir sua presença. Sorri, e caminha até ele.
Ao sentir a areia úmida, pára. Ali permanece, respeitosamente, fitando o ir e vir de suas vagas, aguardando que uma delas venha beijar-lhe os pés: “Com licença?”
O sinal chega, sem demora: “Pode entrar!”
Devagar, adentra o lindo e misterioso mar, cumprindo um ritual particular de entrega, firmado secretamente entre eles, desde os tempos de criança: jamais invadir suas entranhas; aguardar que ele aceite sua presença, com um beijo de espuma.
Com água à altura dos seios, mergulha. Nada submersa, sentindo a força das vagas passando por sobre si, como carícias percorrendo seu corpo. Aqui, no coração do mar, tudo está em paz. Sem fôlego, emerge, deitando-se à tona das águas, nesta profundidade, tranqüilas. Embalada pelo vai-e-vem das ondas, abre os olhos, e, contemplando o azul do céu, faz uma prece silenciosa:
“Ó Deus, que tudo criaste e a Quem tudo pertence!
Senhor dos oceanos, que abrigam milhares de seres.
Que demarcaste limites ao mar,
Que tanto pode dar prazer quanto tirar a vida:
Mesmo sendo tão pequenina, diante de Teus grandes feitos,
Te importas comigo.
Diriges meus passos e atitudes, me proteges, me consolas.
Obrigada, Senhor, pela vida!
Obrigada, Senhor, pelo Teu amor.
Obrigada, Senhor, pelo mar.”
Abandona-se, feliz e agradecida, ao balanço das correntezas, como se aninhada no colo do grandioso mar, estivesse. Neste momento, ela pertence a ele. Ele é só dela.
Ao fim de algum tempo, sabe-se lá quanto, recorda-se de seus pertences, na areia. É preciso voltar. Levanta a cabeça e, ao longe, pequeninas, as pessoas parecem fazer parte de outro universo. Inicia o retorno, com braçadas largas, espaçadas, numa atitude de quem deve, mas não quer.
Chega à areia, arfante. Protetor solar no corpo, estende-se ao sol. 

Ouve os apelos de seu amado: “Volte...”
Exibindo um largo sorriso, responde, em pensamento: “Já vou...”

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sábado, abril 24, 2010

Crioula

Lembro com saudades o tempo em que carregava, dentro de mim, a vida de meus filhos. Dos sustos, por vezes doloridos, provenientes de chutes e cotoveladas, quando os molequinhos decidiam dar uma “esticadinha”, formando um maravilhoso (ui!) ovo na barriga, já tão estendida.
E aquela coceira que não passava, mas que de forma alguma, como bem se sabe, poderíamos resolver com as unhas, sob a terrível ameaça de ficar com a pele estriada. Então, era um tal de passar creme aqui, esfregar um paninho ali, porque, estrias, Deus-me-livre-e-guarde!
A euforia de comprar roupinhas (cores neutras, não se sabe quem vem aí), babadores, lençóis coloridos (flores e palhacinhos, nem pensar), toalhas com capuz, brinquedinhos macios... Que expectativa! Com quem parecerá? Tomara que tenha os lindos olhos do pai. O nariz tem que ser igualzinho ao dele, também. Ih... Será que haverão cabelos? Este pensamento _ou comentário_ sempre era motivo de muitas risadas.
Observava, enternecida, meu marido: quando chegava, à noitinha, fazia questão de assumir as tarefas domésticas, acrescentando ao já estafante dia de trabalho uma canseira extra, que parecia nem sentir. Não queria que “sua crioula” fizesse coisa alguma. Relutei em aceitar seu desejo, que considerava absurdo, e, devagarzinho, um pouquinho agora, mais um bocadinho depois, as tarefas iam saindo. Quando ele chegava, a zanga era tanta, que, embora gentil, me chateava. Resultado: vida de rainha, que prolongou-se ao longo dos anos, “porque eu trabalhava muito e ainda cuidava dos meninos”.
Ao fim de tudo, banho tomado, casa limpa, roupas no varal, ele vinha acariciar o filho (a), conversar com ele (a). Deliciada, eu ficava deitada, quietinha, sentindo suas mãos macias, pra lá e pra cá, naquela montanha situada logo abaixo de meus seios, enquanto ouvia sua voz aveludada, direcionada a meu umbigo, como se este fosse um microfone secreto. O interessante é que, enquanto o pai “conversava” e “dengava”, a criança ficava tranqüila. E, sem os chutes e socos que por vezes me tiravam o fôlego e se tornavam a cada dia mais freqüentes, eu, em suave paz, na maioria das vezes, dormia...
Hoje, anos e anos passados, já não ouço a voz querida, nem vejo os olhos castanho-esverdeados que tanto admirava. Meu marido, aquele que me deixou mal acostumada, dizem todos, partiu para o límpido azul do céu, levando meu coração e mantendo-o junto a si, apesar dos dez anos de ausência.
Nossos filhos trabalham na construção do futuro com que sonham. Ao observá-los dormindo _ como cresceram depressa! Que pernas peludas!_ no mais velho posso rever teu rosto, teus jeitos e trejeitos; no mais novo, teu desvelo em cuidar, em cercar de dengos a pessoa amada. Teus filhos, meu querido, tornaram-se homens honestos e trabalhadores, apesar de não poderem contar com teus olhos protetores ou com teu suor, que de bom grado oferecerias, tenho certeza, a fim de amenizar as dificuldades do caminho.
E eu... mudei de casa, de bairro, de corte de cabelo, de móveis, de local de trabalho. Mantive o bom humor, com qual atravesso qualquer situação; o doce sorriso, que sempre se faz presente; o olhar sereno, de quem nada tem para se arrepender e a voz suave, que cantava baixinho pra te ninar, como se outro menininho meu, fosses. Ninguém imagina que aqui, no mais profundo de mim, gravado está teu nome, teu rosto, o som de tua voz. Uma saudade imensa, que faz de mim, ainda, tua crioula.

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segunda-feira, abril 19, 2010

Caixinha Mágica

Existem conceitos e atitudes que temos como certos. Sabemos que, de forma alguma, faríamos ou sentiríamos diferente. Então, um dia, alguém chega, e de alguma forma, o que seria imutável _incrível_ mudou.
Experimentamos então um mundo de emoções, e emoção é coisa que parece estar guardada numa espécie de caixinha mágica, que, apesar de ser bem pequenina, é capaz de guardar grandes e fortes sentimentos. Uma caixinha que a gente, quando criança, deixa à vista, sem preocupação alguma, e, conforme vai crescendo, vai aprendendo a camuflar, a esconder, com intenção de evitar dor.
De qualquer forma, demonstrar sentimentos é e sempre será muito complicado: jamais se sabe o quanto mostrar; como o objeto de nosso interesse vai reagir; se ele, ou ela, deseja ou não aquilo que, de repente, escapou por nossos lábios, ou pelo nosso olhar.
Esta caixinha, escondida num cantinho escuro do coração, quando aberta, atira-nos num mundo de sensações, sejam elas boas ou ruins, de lágrimas (embora homens não chorem, e mulheres tenham horror a borrar a maquiagem) ou de puro êxtase, como se adolescentes ou crianças ainda fôssemos. Isto, dá medo. E o medo, com o tempo, nos ensina a endurecer.
As pessoas _ veja você_ endurecem! Amargam, como doce velho, quando preferem a solidão à busca, o silêncio à tentativa. Então, por falta de ousadia, ou de autoestima, aprendem a conviver com os sonhos, porque sonhar não expõe, sonhar não dói.
Esquecemos, entretanto, que sonhos não passam de nuvens, que se vão com o vento. "Sonhar não custa nada", diz o poeta. Pois eu digo: tentar também não! Melhor a dor da perda, o constrangimento da negativa, que a covardia que pode nos roubar momentos de extrema felicidade e instalar dúvidas, que para sempre habitarão nossos pensamentos: será que daria certo? Como eu estaria hoje?
Pegue, então, sua caixinha mágica, lá naquele cantinho, cheinha de sonhos e planos já meio empoeirados, respire fundo... e mergulhe dentro dela. Deixe que alguma coisa aconteça!
O resultado, seja o sorriso, seja o pranto, com certeza, será melhor que perceber, no espelho, o tempo passando, enquanto a vida segue segura, mas sem cor, sem sabor.
Viver não é esconder-se debaixo das pedras, mas, voar... velejar... arriscar... expor seu oceano interior.


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sábado, abril 17, 2010

E Deus criou o Negro

Deus criou o Homem.

E também criou o negro:

Forte como o temporal,

Intenso como o vendaval.

Negro força, negro raça!
Negro festeiro, negro sambeiro.
Negro lindo, sorriso por inteiro!

Negro orgulho,
negro brasileiro.

Pele cor da noite sem luar,
Que a força da chibata não conseguiu exterminar!

Olhar vivaz,

Sorriso marcante,
E, como negar?
Pegada eficaz...


É...
Deus criou o homem,

E formou o negro.


Homem que nos fascina,
Cor que nos encanta...

Força que nos domina.


(desconheço o autor; adaptação by Miss Dayse)
O nego lindo da foto: Edilson.

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sábado, abril 10, 2010

Mulher ciumenta

Ser mulher é maravilhoso!
Amamos com intensidade, nos entregamos de corpo, alma e coração.
Mesmo com algumas dúvidas, e elas sempre existirão, nós, mulheres, sempre entramos de cabeça numa relação. Na hora da decisão, entre prós e contras, sempre pendemos para o lado do coração. A razão, esta fica no cantinho, arquivada: no mínimo, serão bons momentos para recordar. Afinal, "antes mal acompanhada do que só", e alguém, um dia, irá dar jeito naquele galinha. Por que não eu?
No decorrer da história, acontece um evento que nos tira do sério: surpreendemos troca de olhares, conversas no msn, que são imediatamente fechadas ao chegarmos perto, troca de torpedos pelo celular, mas, "classudas" como somos, não iremos tomar o bendito aparelho para lê-las, claro. Pelo menos não na frente deles. E, claro, o Orkut, com aquelas mensagens das "amigas", que mandam beijos, dizem estar com saudades, oferecem telefone, dão "aquele mole", e o pior de tudo, o bendito espaço para "depoimento", onde nossos olhos não têm acesso.
Via de regra, quando estamos mooortas de ciúmes, ensandecidas, damos tapas, chutes, puxamos os cabelos do traidor. Enfurecidas, xingamos, ofendemos, arranhamos, mordemos, ameaçamos céus e terra. Loucas de raiva, aos poucos vamos sentindo a dor do coração partido, e percebendo, em lágrimas, que nada adianta... estamos impotentes! A gente gosta mesmo é daquele safado, cachorro, sem-vergonha, que está com aquela carinha de quem não está entendendo nada, de quem não fez nada, nem imagina o porquê disso tudo... "Que isso, amor? O que foi que eu fiz? Você entendeu mal, ela é só uma amiga! Você também não tem seus amigos?"
Ahhhhhhhh!!!!!!!! Que ódiooooooooo!!!!
Mas não há de ser nada... o vento que venta lá, venta cá! E, se nós não tivermos coragem para a vingança maior (todas sabemos a quê me refiro), a própria Natureza há de prover a Justiça Divina.
E nós, seres superiores, com todo o desvelo de quem ama, estaremos lá, exibindo um doce sorriso (bem feito, viu como é bom?), dando força:
_ Calma, amor, já vai passar ...