Onze horas da manhã. Na cidade, o trânsito, depois da tempestade matutina, voltou à calmaria. Nos arranha-céus e pelas ruas, homens e mulheres realizam suas atividades rotineiras, com aquele “gostinho de quero mais”: o fim de semana passou tão depressa!
Saboreando estar de folga numa segunda-feira, a morena caminha em direção ao mar. Por onde passa, provoca olhares, divertindo-se ao tentar adivinhar os pensamentos de cada um: inveja ; reprovação; admiração; aquele... melhor eu nem olhar. Vaidosa, triunfante, segue seu rumo, com ar de indiferença. Ao vislumbrar, ao longe, aquele a quem ama, um sorriso lhe aflora aos lábios. Tem pressa de chegar.
Os pés delicados buscam uma trilha molhada, na areia já escaldante. Antes de tomar posse de seu território, observa, num misto de amor e respeito, o grandioso mar. Perde-se olhando suas ondas, que percorrem a orla de uma ponta a outra, ostentando um gigantesco e maravilhoso colar de espuma.
Escolhe um lugar menos habitado. Arruma seus pertences, que resumem-se a uma canga, que lhe envolvia os quadris, seus óculos e uma bolsinha, contendo um documento de identificação e protetor solar. Mais uma vez, volta-se para ele. O marulhar das ondas parece exigir sua presença. Sorri, e caminha até ele.
Ao sentir a areia úmida, pára. Ali permanece, respeitosamente, fitando o ir e vir de suas vagas, aguardando que uma delas venha beijar-lhe os pés: “Com licença?”
O sinal chega, sem demora: “Pode entrar!”
Devagar, adentra o lindo e misterioso mar, cumprindo um ritual particular de entrega, firmado secretamente entre eles, desde os tempos de criança: jamais invadir suas entranhas; aguardar que ele aceite sua presença, com um beijo de espuma.
Com água à altura dos seios, mergulha. Nada submersa, sentindo a força das vagas passando por sobre si, como carícias percorrendo seu corpo. Aqui, no coração do mar, tudo está em paz. Sem fôlego, emerge, deitando-se à tona das águas, nesta profundidade, tranqüilas. Embalada pelo vai-e-vem das ondas, abre os olhos, e, contemplando o azul do céu, faz uma prece silenciosa:
“Ó Deus, que tudo criaste e a Quem tudo pertence!
Senhor dos oceanos, que abrigam milhares de seres.
Que demarcaste limites ao mar,
Que tanto pode dar prazer quanto tirar a vida:
Mesmo sendo tão pequenina, diante de Teus grandes feitos,
Te importas comigo.
Diriges meus passos e atitudes, me proteges, me consolas.
Obrigada, Senhor, pela vida!
Obrigada, Senhor, pelo Teu amor.
Obrigada, Senhor, pelo mar.”
Abandona-se, feliz e agradecida, ao balanço das correntezas, como se aninhada no colo do grandioso mar, estivesse. Neste momento, ela pertence a ele. Ele é só dela.
Ao fim de algum tempo, sabe-se lá quanto, recorda-se de seus pertences, na areia. É preciso voltar. Levanta a cabeça e, ao longe, pequeninas, as pessoas parecem fazer parte de outro universo. Inicia o retorno, com braçadas largas, espaçadas, numa atitude de quem deve, mas não quer.
Chega à areia, arfante. Protetor solar no corpo, estende-se ao sol.
Ouve os apelos de seu amado: “Volte...”
Exibindo um largo sorriso, responde, em pensamento: “Já vou...”
.........
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário