E aquela coceira que não passava, mas que de forma alguma, como bem se sabe, poderíamos resolver com as unhas, sob a terrível ameaça de ficar com a pele estriada. Então, era um tal de passar creme aqui, esfregar um paninho ali, porque, estrias, Deus-me-livre-e-guarde!
A euforia de comprar roupinhas (cores neutras, não se sabe quem vem aí), babadores, lençóis coloridos (flores e palhacinhos, nem pensar), toalhas com capuz, brinquedinhos macios... Que expectativa! Com quem parecerá? Tomara que tenha os lindos olhos do pai. O nariz tem que ser igualzinho ao dele, também. Ih... Será que haverão cabelos? Este pensamento _ou comentário_ sempre era motivo de muitas risadas.
Observava, enternecida, meu marido: quando chegava, à noitinha, fazia questão de assumir as tarefas domésticas, acrescentando ao já estafante dia de trabalho uma canseira extra, que parecia nem sentir. Não queria que “sua crioula” fizesse coisa alguma. Relutei em aceitar seu desejo, que considerava absurdo, e, devagarzinho, um pouquinho agora, mais um bocadinho depois, as tarefas iam saindo. Quando ele chegava, a zanga era tanta, que, embora gentil, me chateava. Resultado: vida de rainha, que prolongou-se ao longo dos anos, “porque eu trabalhava muito e ainda cuidava dos meninos”.
Ao fim de tudo, banho tomado, casa limpa, roupas no varal, ele vinha acariciar o filho (a), conversar com ele (a). Deliciada, eu ficava deitada, quietinha, sentindo suas mãos macias, pra lá e pra cá, naquela montanha situada logo abaixo de meus seios, enquanto ouvia sua voz aveludada, direcionada a meu umbigo, como se este fosse um microfone secreto. O interessante é que, enquanto o pai “conversava” e “dengava”, a criança ficava tranqüila. E, sem os chutes e socos que por vezes me tiravam o fôlego e se tornavam a cada dia mais freqüentes, eu, em suave paz, na maioria das vezes, dormia...
Hoje, anos e anos passados, já não ouço a voz querida, nem vejo os olhos castanho-esverdeados que tanto admirava. Meu marido, aquele que me deixou mal acostumada, dizem todos, partiu para o límpido azul do céu, levando meu coração e mantendo-o junto a si, apesar dos dez anos de ausência.
Nossos filhos trabalham na construção do futuro com que sonham. Ao observá-los dormindo _ como cresceram depressa! Que pernas peludas!_ no mais velho posso rever teu rosto, teus jeitos e trejeitos; no mais novo, teu desvelo em cuidar, em cercar de dengos a pessoa amada. Teus filhos, meu querido, tornaram-se homens honestos e trabalhadores, apesar de não poderem contar com teus olhos protetores ou com teu suor, que de bom grado oferecerias, tenho certeza, a fim de amenizar as dificuldades do caminho.
E eu... mudei de casa, de bairro, de corte de cabelo, de móveis, de local de trabalho. Mantive o bom humor, com qual atravesso qualquer situação; o doce sorriso, que sempre se faz presente; o olhar sereno, de quem nada tem para se arrepender e a voz suave, que cantava baixinho pra te ninar, como se outro menininho meu, fosses. Ninguém imagina que aqui, no mais profundo de mim, gravado está teu nome, teu rosto, o som de tua voz. Uma saudade imensa, que faz de mim, ainda, tua crioula.
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